Há ocasiões na sucessão dos momentos do quotidiano em que a própria vida se faz canção. Indescritíveis horas de graça em que o infinito se debruça sobre a frágil argila humana.
Um silêncio, uma palavra. A poesia do sol nascente ou a nostalgia do entardecer. A frase de um livro, as notas suaves de uma canção-ternura que ferem a nossa sensibilidade e acordam felizes vivências de outrora. A linguagem das flores, o canto dos pássaros, a chuva suave tamborilando poemas nas vidraças das janelas. Coisas pequenas que trazem mensagens tão grandes. Acontecimentos miúdos que falam tão alto e tocam tão fundo! Coisas de quase nada que sintetizam o mistério de quase tudo.
Indescritíveis e singelos momentos que colocam dentro de nós um pouco de céu, de verde, de azul. O verde da esperança. O azul do entusiasmo. Um rasgo de eternidade.
Há momentos na vida em que a própria vida se faz poema, canção. Mas é preciso estar atento, sem pressa, porque o essencial não tem horário certo, agenda marcada. Para captar o mistério, o fluxo e refluxo do quotidiano é preciso estar atento, disponível, naquela expectativa de quem aguarda a mais querida das visitas.