terça-feira, 24 de abril de 2007

Hoje, a caminho de casa, vi no chão uma ave morta. Estava no meio da rua. Não tinha morrido há muito tempo mas, de ser constantemente pisada pelos carros que passaram, o seu corpo parecia já em decomposição. A cor, outrora brilhante, das penas confundia-se agora com o sujo escuro do alcatrão. Não haveria ali qualquer resto de vida esquecida pelo tempo, ainda curto, desde o acidente fatal que lhe ceifou o voo.

O que me chamou a atenção nesta imagem, à partida de todo banal, foi a forma como, do corpo morto, se erguia, como uma bandeira, uma das asas do animal. Por acaso, ou não, a forma como os carros pisaram aquele corpo no chão, fez com que a asa se levantasse (ou continuasse levantada apesar da morte eminente). Esta era a forma como aquela avezita, já morta, fazia perdurar a sua energia vital, a força para voar já não existia mas a asa continuava estendida...

Lembro-me agora d’ “O Corvo” de Edgar Allan Poe, que caiu morto no chão, de onde a sua alma não se levantará jamais... Será que não? Será mesmo que a vida do corvo acabou ali, no chão, assim que o calor do seu pequeno corpo se dissipou no escuro dessa noite fria? Eu não acredito na Metafísica, mas também não quero acreditar que a alma do pobre corvo acabou ali.

Alguém disse, um dia, que o amor é mais forte que a morte. É nisso que eu quero acreditar. E outro alguém, ainda, disse que a eterna inocência é amar. Então, quem mais amava do que aquela avezita que agora jazia morta no meio da rua? Aquela que sem sequer sentir, sem pensar, abandonou num ápice a trajectória que levava e foi depositar, junto com o frágil corpo, a vida no chão sujo do alcatrão... Se eu te amar com a inocência infinita daquela ave, amar-te-ei para sempre, para além da tua vida ou da minha. Se formos para longe e eu nunca mais te vir, se o meu coração parar, ou o teu, isso serão somente detalhes sem importância, bem menores que isto que a gente tem!

terça-feira, 17 de abril de 2007

Uma chuva anunciada!

O céu, lá fora está cinzento, a chuva faz-se anunciar.
O meu humor está como o céu, taciturno e vacilante. Hoje estive a pensar sobre o tempo. Como seremos nós daqui a 2, 3 anos? Haverá alguém neste preciso momento capaz de dizer, com relativa certeza, algo sobre aquilo em que nos tornaremos.

A minha resposta chegou violenta, sob a forma de um raiar claro sob as cinzas nuvens, e um som forte de trovão, a chuva ja não demora, decerto.
Se calhar ninguém sabe mesmo...
De que será capaz o tempo? Que mal ou bem nos fará? E a isto que a gente tem agora, e que somos capazes de jurar que não acabará nunca, também se afectará com este tempo cruel que nunca pára e nos vais (des)gastando cada dia mais um bocadinho? Cada vez que procuro uma destas respostas invede-me uma tristeza imensa pela minha impotência de acudir aos meus próprios devaneios. Como dizia o Caeiro, mais vale mesmo, é não pensar... de que me serve esta angústia, este medo do que há-de vir?

O vento bateu na minha porta e abriu-a. A sua melodia, ha pouco, triste, deu lugar a um assobio forte. A este rugido junta-se o murmurar das folhas, ainda jovens, das árvores do jardim, que ainda há pouco acordaram com o apelo da Primavera. Este murmúrio diz-me muito. o dilúvio está prestes a rebentar mas, estas folhas, no apogeu da sua juventude não estão minimamente preocupadas! Elas acabaram de despontar, e, por enquanto, haverá sempre um amanhã, por isso, continuam a agitar-se como se sobre elas brilhasse, na verdade um sol de Verão.

As comportas abriram finalmente! A chuva já cai destemidamente a lavar o pó das folhas, que, agora estão quietas e desfrutam apenas deste banho refrescante. Nelas não há preocupações nem canseiras. É Primavera e elas têm a certeza que a chuva passa, e depois regressará o se murmúrio, a sua vida, lavada pelas gotas revitalizantes desta chuva, mais brilhante que o próprio Sol.

Com esta lição das folhas, passou o meu humor taciturno e vacilante (ou terá sido com a chuva, que me lavou a alma?). Invadiu-me também uma certeza, que me faz sorrir e ficar feliz como uma criança. Tu estás aí para mim, como eu estou sempre aqui para ti!

"What a feeling in my soul! Love is brither than the sunshine. Let the rain fall, I don't care: I'm your's and suddently you're mine!"