quarta-feira, 3 de junho de 2009

Sou só eu...

Hoje sentei-me aqui à procura de nós... Nos restos daquilo que eu acho que permaneceu em mim, desde esse tempo, que não passou nunca, mas que parece pertencer a uma era que já não é, que já não existe, a não ser nos labirintos fechados e irreversíveis da minha fraca e débil memória. Sentei-me aqui, ao vento que me percorre como água que lava e leva tudo atrás. Parece que é familiar esta sensação de vazio, porque não encontro nunca grande coisa, só apenas restos... às vezes aparecem fragmentos estranhos, que causam emoções igualmente estranhas cuja origem desconheço e vai para além daquilo que entendo sobre mim, sobre nós. É como procurar descobrir a vida de uma civilização antiga, de que já ouviste falar: conheces o princípio, conheces a actualidade, mas tudo o que está no meio, parece ter sido apagado, por milagre ou por crime, sem que seja possível perceber o que aconteceu entretanto para que aquilo se tenha tornado nisto que se estabeleceu à nossa frente, debaixo dos nossos narizes, sem nos dar hipóteses de retroceder ao princípio de tudo. Será que queríamos voltar? Não sei responder... Ou talvez não queira é saber responder por medo da possivelmente terrível resposta. Sim, tenho estado sem chão! O vazio dos teus olhos e o frio do teu toque lembra-me que já morremos de uma forma terrivelmente irreversível, e cada tentativa para nos encontrar revela-se mais e mais dolorosa. É como tentar imaginar num fruto podre, pronto para adubar a semente, a aparência saudável e doce que tivera em tempos, quando ainda amadurecia. Amadurecemos rápido demais, e deixámo-nos cair para sempre. E dói! Saber que o sentimento é mútuo é bom, mas difícil de aceitar. Desperta em mim, acerca de nós, uma ideia de mediocridade que desconhecia e nunca associaria a nós. Nós fomos tão maiores! Não sei onde nos perdemos, o que foi que aconteceu... De repente, perdi o prazer em visitar-nos nesses recantos da minha memória, e a falta de assiduidade das minhas visitas parece ter-nos apagado de lá. Tenho pena, porque esse lugar só nosso parecia ser o último onde éramos felizes na pluralidade de um nós único... O vento é já mais fraco, só uma brisa quente e confortável. Talvez seja o conformismo tóxico que me vem envolver para não pensar mais em nós. Mas não. No meio do meu devaneio cinzento levanta-se um pequeno, minúsculo e quase imperceptível, rasgo de cor: talvez aquele recanto da minha memória não fosse o nosso último lugar, Talvez haja em ti, um tal recanto, talvez sejas forte o suficiente para preservá-lo, talvez as saudades não te invadam ao ponto de o deixares de visitar. Vai lá, por nós, pelo nós que fomos um dia. Eu sou só eu, agora... talvez me construa de novo e nada tenha a ver com o que já fui, ou talvez o tempo reavive o que eu fui e o volte a ser, talvez nos encontremos num mundo diferente daquele e tudo comece de novo

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Quem és tu...

Fecho os olhos para te ver e é assim só que consigo! Procuro o que já não és ou que nunca foste mas só te encontro de olhos fechados, se olhar para ti. Quando olho para trás, para o que ainda há pouco foi, parece-me tão distante que quase deixo de acreditar que foi de facto real. Como é possível que tudo tenha ficado tão diferente... Queria, ao menos entender o que mudou... Mas será que isso é importante agora?
Queria, de volta, aquela inocente vontade de sorrir... E a secreta segura certeza, mas não sei onde a deixei contigo ou com aquilo que nunca foste.

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Os teus olhos

Porque não choras quando te dói?

Porque te escondes por trás de uma força que não queres ter?

Os teus olhos atentos e brilhantes

Já não brilham como dantes

E, ao fecharem-se, calam os ais

Das palavras que, como punhais,

Te feriram o olhar.

Não te escondas mais!

Revolta-te, grita

E agita

A terra por baixo dos teus pés;

Reclama

Até com o chão que te sustenta,

Com o corpo que carrega a alma,

Depois, volta a ficar atenta

E calma…

Que o brilho dos teus olhos volte

E não parta nunca mais!

Ontem estive a ler as tuas cartas. A minha dúvida faz-me mal. Parece que há algo a forçar-me a entender, afinal, qual o perigo que carregamos. “O simples facto de sermos é bastante”, mas… É verdade que não preciso de palavras para isto que a gente tem, mas… Às vezes, ferem-me, as tuas palavras, e eu tento defender-me delas, mas, com as defesas, surge a dúvida, que, tantas vezes, me faz falhar. You should read my mind! Why don’t you? Do you?!

Que foi que aconteceu? Que é feito de nós? De onde veio este pouco “à vontade” para dizer que gosto de ti?

Reparo agora que são só perguntas… que treta de reflexão a minha que, em vez de conclusões, só gera mais dúvidas! e eu, sem saber como ou com quem esclarecê-las…

sábado, 19 de maio de 2007

Há ocasiões na sucessão dos momentos do quotidiano em que a própria vida se faz canção. Indescritíveis horas de graça em que o infinito se debruça sobre a frágil argila humana.

Um silêncio, uma palavra. A poesia do sol nascente ou a nostalgia do entardecer. A frase de um livro, as notas suaves de uma canção-ternura que ferem a nossa sensibilidade e acordam felizes vivências de outrora. A linguagem das flores, o canto dos pássaros, a chuva suave tamborilando poemas nas vidraças das janelas. Coisas pequenas que trazem mensagens tão grandes. Acontecimentos miúdos que falam tão alto e tocam tão fundo! Coisas de quase nada que sintetizam o mistério de quase tudo.

Indescritíveis e singelos momentos que colocam dentro de nós um pouco de céu, de verde, de azul. O verde da esperança. O azul do entusiasmo. Um rasgo de eternidade.

Há momentos na vida em que a própria vida se faz poema, canção. Mas é preciso estar atento, sem pressa, porque o essencial não tem horário certo, agenda marcada. Para captar o mistério, o fluxo e refluxo do quotidiano é preciso estar atento, disponível, naquela expectativa de quem aguarda a mais querida das visitas.

terça-feira, 24 de abril de 2007

Hoje, a caminho de casa, vi no chão uma ave morta. Estava no meio da rua. Não tinha morrido há muito tempo mas, de ser constantemente pisada pelos carros que passaram, o seu corpo parecia já em decomposição. A cor, outrora brilhante, das penas confundia-se agora com o sujo escuro do alcatrão. Não haveria ali qualquer resto de vida esquecida pelo tempo, ainda curto, desde o acidente fatal que lhe ceifou o voo.

O que me chamou a atenção nesta imagem, à partida de todo banal, foi a forma como, do corpo morto, se erguia, como uma bandeira, uma das asas do animal. Por acaso, ou não, a forma como os carros pisaram aquele corpo no chão, fez com que a asa se levantasse (ou continuasse levantada apesar da morte eminente). Esta era a forma como aquela avezita, já morta, fazia perdurar a sua energia vital, a força para voar já não existia mas a asa continuava estendida...

Lembro-me agora d’ “O Corvo” de Edgar Allan Poe, que caiu morto no chão, de onde a sua alma não se levantará jamais... Será que não? Será mesmo que a vida do corvo acabou ali, no chão, assim que o calor do seu pequeno corpo se dissipou no escuro dessa noite fria? Eu não acredito na Metafísica, mas também não quero acreditar que a alma do pobre corvo acabou ali.

Alguém disse, um dia, que o amor é mais forte que a morte. É nisso que eu quero acreditar. E outro alguém, ainda, disse que a eterna inocência é amar. Então, quem mais amava do que aquela avezita que agora jazia morta no meio da rua? Aquela que sem sequer sentir, sem pensar, abandonou num ápice a trajectória que levava e foi depositar, junto com o frágil corpo, a vida no chão sujo do alcatrão... Se eu te amar com a inocência infinita daquela ave, amar-te-ei para sempre, para além da tua vida ou da minha. Se formos para longe e eu nunca mais te vir, se o meu coração parar, ou o teu, isso serão somente detalhes sem importância, bem menores que isto que a gente tem!

terça-feira, 17 de abril de 2007

Uma chuva anunciada!

O céu, lá fora está cinzento, a chuva faz-se anunciar.
O meu humor está como o céu, taciturno e vacilante. Hoje estive a pensar sobre o tempo. Como seremos nós daqui a 2, 3 anos? Haverá alguém neste preciso momento capaz de dizer, com relativa certeza, algo sobre aquilo em que nos tornaremos.

A minha resposta chegou violenta, sob a forma de um raiar claro sob as cinzas nuvens, e um som forte de trovão, a chuva ja não demora, decerto.
Se calhar ninguém sabe mesmo...
De que será capaz o tempo? Que mal ou bem nos fará? E a isto que a gente tem agora, e que somos capazes de jurar que não acabará nunca, também se afectará com este tempo cruel que nunca pára e nos vais (des)gastando cada dia mais um bocadinho? Cada vez que procuro uma destas respostas invede-me uma tristeza imensa pela minha impotência de acudir aos meus próprios devaneios. Como dizia o Caeiro, mais vale mesmo, é não pensar... de que me serve esta angústia, este medo do que há-de vir?

O vento bateu na minha porta e abriu-a. A sua melodia, ha pouco, triste, deu lugar a um assobio forte. A este rugido junta-se o murmurar das folhas, ainda jovens, das árvores do jardim, que ainda há pouco acordaram com o apelo da Primavera. Este murmúrio diz-me muito. o dilúvio está prestes a rebentar mas, estas folhas, no apogeu da sua juventude não estão minimamente preocupadas! Elas acabaram de despontar, e, por enquanto, haverá sempre um amanhã, por isso, continuam a agitar-se como se sobre elas brilhasse, na verdade um sol de Verão.

As comportas abriram finalmente! A chuva já cai destemidamente a lavar o pó das folhas, que, agora estão quietas e desfrutam apenas deste banho refrescante. Nelas não há preocupações nem canseiras. É Primavera e elas têm a certeza que a chuva passa, e depois regressará o se murmúrio, a sua vida, lavada pelas gotas revitalizantes desta chuva, mais brilhante que o próprio Sol.

Com esta lição das folhas, passou o meu humor taciturno e vacilante (ou terá sido com a chuva, que me lavou a alma?). Invadiu-me também uma certeza, que me faz sorrir e ficar feliz como uma criança. Tu estás aí para mim, como eu estou sempre aqui para ti!

"What a feeling in my soul! Love is brither than the sunshine. Let the rain fall, I don't care: I'm your's and suddently you're mine!"

quinta-feira, 29 de março de 2007

boas surpresas!!!

Hoje acordei de péssimo humor! Assim que abri os olhos, pensando libertar-me dos meus pesadelos, dei de caras com a realidade das preocupações que ultimamente me atormentam. São questões existenciais, cuja reflexão (ou perda de tempo, como se queira encarar) provavelmente, conseguirá levar-me a parte alguma, na melhor das hipóteses. Mas, enfim... após um grande esforço, consegui vencer a enorme vontade de me manter na cama o dia todo, a fazer absolutamente nada, não dava mesmo, tinha algumas responsabilidades para cumprir...
Foi então que, quando estava eu, sentada na minha cama (já feita) a fazer nada, em vez de cumprir com as tais obrigações, bateram à porta do meu quarto. Era alguém com um envelope amarelo, onde figurava o meu nome no lugar do destinatário. Primeiro fiquei surpreendida, pois não estava à espera de correspondência, depois pensei que fosse uma carta do Luxemburgo. Olhei para o canto e vi que o selo tinha dos ctt da Univ de Coimbra... era mesmo... só podia ser... era uma carta do meu anjinho. O meu humor alterou-se instantaneamente!
Com uma alegria própria de uma criança que recebe uma prenda, abri apressadamente o tal envelope, e de lá tirei um papelinho verde com as suas palavras...
Sabes que me assustei com as tuas primeiras palavras, mas eram só palavras, e como eram tuas, eu compreendia-as logo a seguir. As lágrimas rolavam sem que eu tivesse, sobre elas qualquer controlo, chorava talvez, porque sentia cada uma das tuas palavras como se fossem minhas, como se lesses a minha mente ("I don't mind if you don't mind, I don't shine if you don't shine. Before you jump tell me what you find when you read my mind..."), e , sim, o que escreves tem muito eco cá dentro, tu própria tens um lugar sagrado aqui.
Mas a causa desta emoção está muito longe das palavras. As palavras são nada, reduzem-nos e eufemizam o que sentimos, perturbam o equilíbrio da lâmina afiada daquilo que sentimos, tira-nos o prazer de sentir o frio do aço a cortar-nos a pele da solidão para deixar sair isto que a gente tem e que não sabe dizer o que é. Mas também não importa o definir. Nós somos o que somos, e o que temos é tão grande e faz-nos tão maiores que palavras e definições, que a necessidade de entender perde-se no caminho até nós.
Apetece-me dizer-ta tantas coisas ("There are many things that I would like to say to you, but I don't know how") mas tudo o que te posso dizer é composto por palavras, por isso, fico por aqui e vou só ser eu, tu sabes o que isso significa.