Hoje sentei-me aqui à procura de nós... Nos restos daquilo que eu acho que permaneceu em mim, desde esse tempo, que não passou nunca, mas que parece pertencer a uma era que já não é, que já não existe, a não ser nos labirintos fechados e irreversíveis da minha fraca e débil memória. Sentei-me aqui, ao vento que me percorre como água que lava e leva tudo atrás. Parece que é familiar esta sensação de vazio, porque não encontro nunca grande coisa, só apenas restos... às vezes aparecem fragmentos estranhos, que causam emoções igualmente estranhas cuja origem desconheço e vai para além daquilo que entendo sobre mim, sobre nós. É como procurar descobrir a vida de uma civilização antiga, de que já ouviste falar: conheces o princípio, conheces a actualidade, mas tudo o que está no meio, parece ter sido apagado, por milagre ou por crime, sem que seja possível perceber o que aconteceu entretanto para que aquilo se tenha tornado nisto que se estabeleceu à nossa frente, debaixo dos nossos narizes, sem nos dar hipóteses de retroceder ao princípio de tudo. Será que queríamos voltar? Não sei responder... Ou talvez não queira é saber responder por medo da possivelmente terrível resposta. Sim, tenho estado sem chão! O vazio dos teus olhos e o frio do teu toque lembra-me que já morremos de uma forma terrivelmente irreversível, e cada tentativa para nos encontrar revela-se mais e mais dolorosa. É como tentar imaginar num fruto podre, pronto para adubar a semente, a aparência saudável e doce que tivera em tempos, quando ainda amadurecia. Amadurecemos rápido demais, e deixámo-nos cair para sempre. E dói! Saber que o sentimento é mútuo é bom, mas difícil de aceitar. Desperta em mim, acerca de nós, uma ideia de mediocridade que desconhecia e nunca associaria a nós. Nós fomos tão maiores! Não sei onde nos perdemos, o que foi que aconteceu... De repente, perdi o prazer em visitar-nos nesses recantos da minha memória, e a falta de assiduidade das minhas visitas parece ter-nos apagado de lá. Tenho pena, porque esse lugar só nosso parecia ser o último onde éramos felizes na pluralidade de um nós único... O vento é já mais fraco, só uma brisa quente e confortável. Talvez seja o conformismo tóxico que me vem envolver para não pensar mais em nós. Mas não. No meio do meu devaneio cinzento levanta-se um pequeno, minúsculo e quase imperceptível, rasgo de cor: talvez aquele recanto da minha memória não fosse o nosso último lugar, Talvez haja em ti, um tal recanto, talvez sejas forte o suficiente para preservá-lo, talvez as saudades não te invadam ao ponto de o deixares de visitar. Vai lá, por nós, pelo nós que fomos um dia. Eu sou só eu, agora... talvez me construa de novo e nada tenha a ver com o que já fui, ou talvez o tempo reavive o que eu fui e o volte a ser, talvez nos encontremos num mundo diferente daquele e tudo comece de novo
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